Sunday, November 23, 2008

Poema à boca fechada

(Foto: Homem estátua - Madrid - Preciados)
(José Saramago)

Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vaza de fundo em que há raízes tortas.


Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais bóiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.


Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

4 Comments:

Blogger Lurdes said...

Gostei particularmente do final.
E adorei a tua foto!!!!! Tás linda!

Becitos

12:48 PM WET  
Blogger Lurdes said...

Feliz Natal!!!!!
Beijinhos

11:49 AM WET  
Blogger Lurdes said...

Votos de um Feliz Ano Novo!!!
Beijinhos

5:47 PM WET  
Blogger Dina C said...

Vim para te desejar um Feliz Ano Novo!!!

Beijinhos

1:07 PM WET  

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